Como Valorizar o Papel do Professor no Brasil?

8 de setembro de 2017

Como Valorizar o Papel do Professor no Brasil?

Para muitas pessoas, os professores têm um único papel: ensinar às crianças e aos jovens o conteúdo básico — e, por vezes, arcaico — de livros didáticos.

 

O sucesso dos estudantes se baseia, principalmente, no trabalho do professor. E, para que essa influência seja positiva, é preciso que esse profissional seja uma figura comprometida e capacitada, não só em relação à disciplina que ensina, mas aos métodos de ensino. E como isso pode ser garantido?

 

Em entrevista à Carta Educação, a diretora do Programa de Formação de Professores de Harvard, Katherine Merseth, que participou do debate “Como transformar a carreira de professor no Brasil”, afirmou que algumas alternativas, como a redução dos alunos nas classes, são ineficazes. Maior tempo de trabalho e maiores investimentos financeiros sem planejamento, também não são garantia de melhora do ensino.

 

Então, o que pode ser feito para mudar o papel do professor no Brasil?

Formação adequada

 

Para que os professores possam educar nossos meninos e nossas meninas com propriedade, primeiro é preciso dar a devida importância à formação deles próprios, o que, na maioria das vezes, é deixado de lado.

 

Um exemplo é o uso de novas tecnologias. Há muito vem-se estudando as vantagens da utilização de computadores, tablets e outros aparatos tecnológicos como apoio ao processo educacional nas salas de aula. Para aproveitar o potencial que esses recursos oferecem, é preciso que os profissionais saibam usá-los adequadamente, no entanto, de acordo com a pesquisa TIC Educação 2015, que analisa o uso de tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras, 91% dos professores afirmam ter aprendido a utilizar esses recursos por conta própria.

 

Embora esse dado sugira proatividade dos professores, também evidencia um papel menos ativo das instituições e carência de incentivos a uma formação voltada para essa área.  Seguindo a mesma linha, apenas 39% dos  professores entrevistados afirmaram ter cursado disciplinas sobre como usar computador e Internet em atividades com os alunos durante a graduação.

 

A pesquisa Formação Continuada de Professores no Brasil, do Instituto Ayrton Senna, aponta seis obstáculos que precisam ser superados para acelerar o desenvolvimento dos educadores: carência de incentivos formais; escassez de tempo por parte dos professores; lacunas e baixa aplicabilidade do conteúdo das ações oferecidas; preferências por ações de curto prazo e alta visibilidade; falta de alinhamento das ações de formação com os planos de carreira e desenvolvimento profissional dos professores; e alta rotatividade do corpo docente.

 

Segundo a publicação, embora o Plano Nacional de Educação determine que o investimento público na área atinja 10% do PIB ao final do decênio de atuação, não há uma regra específica quanto ao valor de destino à formação dos professores. Dessa forma, fica a cargo das instituições dar ou não prioridade a essa ação.

 

A pesquisa pontua que, ainda que seja papel do Estado promover uma educação pública de qualidade, é importante que organizações da sociedade civil também se envolvam, desenvolvendo, por exemplo, laboratórios de formulação de novas metodologias e tecnologias.

 

Essas metodologias e tecnologias, no entanto, precisam ser desenvolvidas em tempo suficiente para a fixação por parte dos professores, e aplicáveis em sala de aula. A publicação indica que grande parte dos professores considera as formações recebidas teóricas demais e não abordam os conteúdos demandados.

 

Mas algumas opções estão disponíveis para os professores que desejam se capacitar. Em 2016, o Ministério da Educação (MEC) anunciou a Rede Universidade do Professor, com oferta de mais de 100 mil vagas para formação de professores efetivos das redes estaduais e municipais que não atuam em sua área de formação em universidades e institutos federais, ou na modalidade EAD, por meio da Universidade Aberta do Brasil.

 

Em 2017, serão ofertadas vagas em cursos de primeira e segunda licenciaturas e de complementação pedagógica do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, com inscrições pela Plataforma Freire.

 

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O MEC e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) também oferecem cursos como:

 

  • Pró-Letramento – Mobilização pela Qualidade da Educação, programa de formação continuada de professores para a melhoria da qualidade de aprendizagem da leitura/escrita e matemática nos anos/séries iniciais do ensino fundamental. O programa é realizado pelo MEC, em parceria com universidades que integram a Rede Nacional de Formação Continuada de Professores e com adesão dos estados e municípios. Podem participar todos os professores que estão em exercício, nas séries iniciais do ensino fundamental das escolas públicas.
  • Programa Gestão da Aprendizagem Escolar, programa que oferece formação continuada em língua portuguesa e matemática aos professores dos anos finais (do sexto ao nono ano) do ensino fundamental em exercício nas escolas públicas. A formação possui carga horária de 300 horas, sendo 120 horas presenciais e 180 horas a distância (estudos individuais) para cada área temática. O programa inclui discussões sobre questões prático-teóricas e busca contribuir para o aperfeiçoamento da autonomia do professor em sala de aula.
  • Programa de Consolidação das Licenciaturas – Prodocência, programa que visa ampliar a qualidade das ações voltadas à formação de professores, com prioridade para a formação inicial desenvolvida nos cursos de licenciaturas das instituições federais e estaduais de educação superior. Criado em 2006, o Prodocência financia projetos voltados para a formação e o exercício profissional dos futuros docentes, além de implementar ações definidas nas diretrizes curriculares da formação de professores para a educação básica.
  • Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), programa que oferece bolsas de iniciação à docência aos alunos de cursos presenciais que se dediquem ao estágio nas escolas públicas e que, quando graduados, se comprometam com o exercício do magistério na rede pública. O objetivo é antecipar o vínculo entre os futuros mestres e as salas de aula da rede pública.
  • Observatório da Educação, parceria entre a Capes e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o programa Observatório da Educação atua na pós-graduação – mestrado e doutorado, apoiando projetos de pesquisa que usem como base os bancos do Inep. A intenção é estimular estudos sobre temas como a avaliação educacional, fluxo escolar, educação e mercado de trabalho, financiamento da educação e educação e demografia, para estimular a formação de mestres e doutores que atuem nas áreas de gestão de políticas educacionais, avaliação educacional e formação de professores.

 

 

Valorização dos profissionais

 

Alguns dos obstáculos elencados pela pesquisa do Instituto Ayrton Senna estão diretamente ligados à valorização dos profissionais de educação. Em 2016, o piso salarial dos professores brasileiros passou a ser de R$2.135,64, mas, de acordo com o  Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, mais da metade dos estados brasileiros não cumpre a decisão.

 

O Índice Global de Status de Professores, da Varkey GEMS, aponta o Brasil como o penúltimo na lista de valorização dos profissionais da educação.  Além disso, o nosso país está no topo do ranking mundial de violência contra os professores. Mais de 12% dos profissionais brasileiros ouvidos em uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico afirmaram ter sofrido algum tipo de violência.

 

Outro desafio é o tempo, uma vez que muitos professores trabalham em duas ou mais escolas ao mesmo tempo. O ideal, de acordo com a publicação, seria que esses profissionais estivessem vinculados a uma única escola, com uma jornada de trabalho de oito horas que contemple tempo em sala de aula e horas de formação.

 

A falta de um plano de carreira que associe ascensão profissional a desenvolvimento também foi mencionada como um fator agravante da lacuna de incentivos aos docentes na formação continuada. Muitos profissionais não enxergam as mudanças que capacitações podem trazer para seu desenvolvimento profissional, por isso não se engajam em ações formativas. Segundo a publicação, essa é a razão que faz com que o estabelecimento de um ciclo de desempenho e desenvolvimento (DD) seja tão importante.

 

Para motivar o desenvolvimento, é necessário identificar as necessidades individuais do professor, encaminhando os profissionais a iniciativas de formação apropriadas através de planos específicos; definir critérios consistentes de avaliação; realizar feedbacks periódicos e disponibilizar a oportunidade de evoluir em um plano de carreira estruturado.

 

O Plano Nacional de Educação (PNE) já prevê mudanças que influenciam a gestão DD das redes, como levantamento de demanda por formação continuada de professores e fomento de sua oferta por parte de instituições públicas de ensino superior; instituição de planos de carreira para profissionais do magistério; compromisso com a formação de professores de acordo com suas necessidades de desenvolvimento; disponibilidade de oportunidades ligadas ao mérito; e acompanhamento de professores iniciantes por profissionais do magistério experientes para a tomada de decisão sobre efetivação após estágios probatórios.

 

Em relação ao salário dos profissionais, a meta 17 do Plano busca “valorizar os(as) profissionais do magistério das redes públicas de educação básica de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos(as) demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano de vigência deste PNE”.

 

O documento pontua que a defasagem na remuneração dos profissionais da educação é apontada como um dos principais motivos da diminuição do número de universitários em cursos de formação de professores, o que coloca em risco a meta de universalização e ampliação da obrigatoriedade da educação básica, além de ser contrária às necessidades de educação da população brasileira. Embora não seja a solução de todos os problemas, uma melhora na remuneração pode tornar a carreira mais atraente pelas condições de trabalho e realização profissional.

 

Já a meta 18 do Plano busca “assegurar, no prazo de 2 (dois) anos, a existência de planos de Carreira para os(as) profissionais da educação básica e superior pública de todos os sistemas de ensino e, para o plano de Carreira dos(as) profissionais da educação básica pública, tomar como referência o piso salarial nacional profissional, definido em lei federal, nos termos do inciso VIII do art. 206 da Constituição Federal”.

 

Para garantir que essa meta seja cumprida, o documento sugere como estratégias: estruturar as redes públicas de educação básica para que, até o início do terceiro ano de vigência do PNE, pelo menos 90% dos profissionais do magistério e 50% profissionais da educação não docentes ocupem cargos efetivos e estejam em exercìcio; prever nos planos de carreira licenças remuneradas e incentivos para qualificação profissional; e priorizar o repasse de transferências federais voluntárias, na área de educação, para os Estados, o Distrito Federal e os Municípios que tenham aprovado lei específica estabelecendo planos de carreira para os profissionais da educação.

 

Outra questão que pode ser resolvida com a efetivação dos profissionais e a implementação dos planos de carreira é a alta rotatividade de professores nas instituições. Transferências, desligamentos e contratos temporários interrompem o processo de formação e o investimento é perdido.

 

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Modelos de ensino

 

Ao longo das últimas décadas, as tecnologias evoluíram drasticamente e, embora algumas escolas agreguem as inovações às salas de aula, o cenário parece continuar o mesmo: um quadro e uma figura que transmite o conhecimento de forma linear, do professor para o aluno.

 

Para mudar o papel dos professores, é preciso entender a necessidade de uma mudança no modelo de ensino. O profissional da educação deve ser um transmissor de informações ou um mediador no processo de aprendizagem?

 

Vivemos em uma sociedade hiperconectada e tecnológica, e é inevitável que isso chegue às salas de aula. O importante, no entanto, é como essas tecnologias devem ser usadas no ensino, e, nesse contexto, qual seria a função dos professores. Se antes os professores eram a fonte de conhecimento, hoje a internet apresenta toneladas de informações. Cabe ao profissional do ensino, então, apresentar as informações aos alunos e ajudá-los a filtrá-las e interpretá-las.

Eles são, nesse sentido, facilitadores do processo de aprendizado. Ao mostrar como se adquire conhecimento, os professores ensinam aos alunos como “aprender a aprender”, tendo confiança para aprender por conta própria, utilizando as ferramentas tecnológicas e cognitivas à sua disposição da melhor maneira possível. O profissional de ensino tem que ser capaz de tornar os alunos independentes e motivados para a descoberta, para que o aprendizado e a vontade de aprender não se limitem ao ambiente escolar.

 

Embora seja possível imaginar que a internet possa, em algum sentido, substituir a escola, na verdade essa tecnologia torna ainda mais importante a função das instituições de ensino. Em uma sociedade com mudanças tão contínuas e rápidas, em que convivemos com pessoas com variadas histórias de vida, conhecimentos e sonhos, cabe às escolas – e, consequentemente, aos professores – compreender essa nova realidade e ajudar a potencializar os pontos produtivos e corrigir os pontos fracos.

 

É claro que ainda é preciso seguir as grades curriculares, mas o ensino pode utilizar-se de modelos muito mais criativos e de ferramentas adicionais. É aí que entra, por exemplo, a tecnologia. As plataformas digitais de ensino oferecem oportunidades para enriquecer conhecimentos, explorar novas temáticas e aprimorar o processo de aprendizagem, além de servirem de suporte para os alunos fora do ambiente escolar.

 

Esse tipo de ferramenta permite o envio de mensagens, realização de provas e pesquisas guiadas, exploração de conhecimentos, entre outras práticas que ajudam o professor a se tornar um profissional multifacetado, que equilibra conceitos tradicionais e inovações contemporâneas.

 

Esse tipo de tecnologia permite também o acompanhamento do progresso dos alunos, com identificação de dificuldades específicas e avaliações individualizadas. Ferramentas como o Sistema de Gestão de Provas (SGP), da Starline, podem ser grandes aliadas nesse sentido.

 

A ferramenta permite que o professor gerencie e organize o processo de criação das avaliações, faz a correção automática de questões objetivas e disponibiliza relatórios de desempenho tanto da turma quanto de cada estudante individualmente, sendo ideal para a realização de provas em larga escala.

 

O sistema também possibilita a criação de bancos de questões e de agendamento de testes, e formata a diagrama as provas. Para exercícios online, o Prova Fácil, aplicativo atrelado ao SGP, dá conta do recado. Ele pode ser usado tanto pelo navegador web quanto pelo tablet ou smartphone.

 

De acordo com a pesquisa Formação Continuada de Professores no Brasil, existem quatro funções para o professor em um novo modelo educacional. A primeira delas é saber criar e cuidar das redes pessoais, sociais e profissionais, criando capacidades e competências nos alunos para usar todo o conhecimento e informação disponível efetivamente, ensinando a construir critérios para filtrar conhecimentos mais relevantes e informações mais adequadas.

 

Outro quesito apontado no estudo é a necessidade de que, em um mundo urbanizado e em constante mutação, crianças e adolescentes aprendam a trabalhar uns com os outros, e o papel do profissional de educação em ensinar os alunos a criar e manter essas redes, que são a base de um desempenho competente em sociedades complexas.

 

A terceira função é a de ensinar a formular boas perguntas e boas hipóteses sobre as informações disponíveis na internet, formando o pensamento crítico e criativo dos seus alunos. A última função está diretamente relacionada àquela, e trata de desenvolver modelos sistemáticos de ensino e aprendizagem dessas novas gramáticas, a fim de localizar, acessar e utilizar melhor o conhecimento disponível.

 

Para que os profissionais consigam realizar essas funções, no entanto, é necessária, como mencionamos anteriormente, uma capacitação continuada. Para isso, a pesquisa indica quatro linhas de ação. A primeira é institucionalizar a importância da formação continuada, com campanhas, certificação voluntária de escolas com ciclo de desempenho e desenvolvimento (DD)e avaliações externas do panorama de formação continuada.

 

Também é preciso estabelecer um ciclo de desempenho e desenvolvimento, com plano de carreira estruturado e ligado a DD; instrumentos de avaliação de DD (matriz de competências, formulário de avaliação etc.); elaboração de processos de DD; e um sistema de incentivos e consequências no ciclo de DD.

 

A terceira linha de ação sugerida é promover ajustes de conteúdo e abordagens práticas e customizadas, com abordagens de formação continuada mais práticas e colaborativas; conteúdo que fomente sistematização de aulas; melhoria e disseminação do ensino a distância; e ajustes de conteúdo e abordagens das iniciativas atuais.

 

Por último, a pesquisa indica que deve haver uma legislação que fomente a formação continuada, com elaboração de um currículo nacional único de formação de professores; certificação para professores e exercício; direcionamento mínimo de horas para formação continuada; e um sistema de consequências para baixo aproveitamento.

 

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O exemplo mexicano

 

O México vive uma reforma educativa que se iniciou em 2013 e um dos principais propósitos é buscar melhores resultados no desempenho dos alunos assegurando a qualidade profissional dos docentes.  Dessa forma, o foco da reforma é a carreira e a avaliação docente.

 

O primeiro passo foi estabelecer a regulação da trajetória docente por meio do Serviço Profissional Docente (SPD), que regula o ingresso, a permanência e a mobilidade na carreira docente. Também foi criada uma legislação que regula completamente a carreira profissional docente e se articula em torno da avaliação do desempenho.

 

Como não há um modelo amplamente aceito do que seja uma docência competente, e, por consequência, não há modelos de como avaliá-la, os termos da reforma consideraram a avaliação como “a ação realizada para medir a qualidade e os resultados do ensino, gestão, supervisão, ensinando aconselhamento técnico ou de qualquer outra natureza acadêmica.” Além disso, é estabelecido que tal avaliação deve ser obrigatória para todos os agentes educativos, sejam provisórios ou definitivos, e que deve ser realizada, pelo menos, de quatro em quatro anos.

 

Toda a reforma educacional mexicana se baseou na aptidão e mérito educacional dos educadores. O reconhecimento das qualificações foi considerado indispensável para ingressar e permanecer no serviço docente ou obter algum reconhecimento, sejam horas adicionais, responsabilidades no interior da escola ou prêmios salariais. Pela primeira vez no sistema de ensino mexicano, não foram considerados como critérios para a promoção horizontal ou vertical anos de experiência de trabalho ou a acumulação de provas ou de certificação.

 

Outra característica essencial da nova carreira docente mexicana é o fato de que o Estado é a única autoridade na regulação deste serviço.

Além disso, foi instituído um documento que integra todos os processos da vida profissional: ingresso, promoção, permanência e reconhecimento. Para saber mais sobre a reforma educativa mexicana, clique aqui.