Como os melhores sistemas escolares chegam ao topo?

4 de maio de 2017

Tornar seu modelo de ensino um sistema de excelência que figure em uma lista de melhores do mundo é o sonho de qualquer líder. Melhorar a performance das instituições de ensino, entretanto, não é tarefa fácil. Embora haja investimentos financeiros e tentativas de reformas educacionais, o desempenho de muitos sistemas de educação mudou pouco nas últimas décadas. Poucas das reformas mais apoiadas, como dar mais autonomia às escolas ou reduzir o tamanho das classes, deram resultados satisfatórios. Alguns sistemas, no entanto, conseguem completar esse desafio de forma vitoriosa.   Então, o que esses sistemas educacionais fazem que os tornam mais eficientes que outros? A pesquisa How the world’s best-performing school systems come out on top (“Como os sistemas escolares com melhores desempenhos do mundo chegam ao topo”), da McKinsey on Society, estudou 25 sistemas escolares do mundo, incluindo os dez melhores, e analisou o que os de melhor performance têm em comum e que ferramentas eles utilizam para melhorar o desempenho dos alunos.   De acordo com o estudo, são três as questões que mais importam para colocar os modelos educacionais entre os de melhor desempenho: conseguir as pessoas certas para serem seus professores; ajudar esses profissionais a se tornarem instrutores efetivos; e assegurar que o sistema esteja apto a proporcionar a melhor educação possível para cada criança.   É claro que o contexto social, econômico e político dos países onde estão localizadas as escolas é determinante para o caminho que os gestores devem seguir, mas a pesquisa afirma que focar nos três motores mencionados é essencial para melhorar o desempenho dos alunos e, ainda mais importante, que é improvável que os esforços de reforma que não levarem isso em consideração promovam as melhorias nos resultados que os líderes de sistemas educacionais estão se esforçando para alcançar.

Qualificação dos professores

  De acordo com a pesquisa, a reforma que faz mais sucesso quando se trata de tentar melhorar a qualidade da educação é a redução da quantidade de alunos em sala de aula. No entanto, a diminuição do tamanho das classes não mostra impacto nos resultados dos estudantes. De 112 estudos relacionados ao tema, apenas nove encontraram alguma relação positiva, mas, mesmo assim, não muito significativa. Por outro lado, todos os estudos apontaram que variações na qualidade dos professores dominam completamente qualquer efeito da redução do tamanho das salas de aula.   Essa evidência, então, sugere que o principal condutor da variação de aprendizado dos alunos em suas escolas é a qualidade dos professores. Um estudo feito em Tennessee, nos Estados Unidos, mostrou que se dois estudantes medianos tiverem dois professores diferentes, um de alta performance e outro de performance mais baixa, o desempenho dos alunos pode variar em até 50% em três anos, enquanto a redução do tamanho das salas de aula aumenta a performance do aluno em, no máximo, 8%. Outros estudos relacionados a essa temática sugerem que estudantes orientados por professores de alta performance progridem três vezes mais rápido que os orientados por professores de performance mais baixa. A qualidade dos sistemas de educação está na qualidade dos professores e é importante que os docentes tenham o conhecimento e habilidades que se espera que os estudantes adquiram.   O diagnóstico da McKinsey on Society aponta que os sistemas de ensino com melhor performance consistentemente atraem pessoas mais capazes para a profissão docente, levando a melhores resultados estudantis. Eles fazem isso tornando a entrada do professor no treinamento docente extremamente seletiva, desenvolvendo processos de seleção efetivos para selecionar os profissionais certos para se tornarem professores e pagando uma boa compensação inicial. Aplicar esses fundamentos de forma certa aumenta o status da profissão e ajuda a atrair candidatos ainda melhores.

Então, como selecionar os profissionais?

As escolas de alta performance têm mecanismos mais eficazes para selecionar professores para treinamento que as de baixa performance. Isso acontece porque elas reconhecem que uma decisão ruim durante a seleção pode levar a até mais de 40 anos de ensino ruim.   Os processos utilizados pelos sistemas de ensino de alto desempenho reconhecem que para uma pessoa se tornar um bom professor, ela precisa ter um conjunto de características que podem ser identificadas antes que ela comece a lecionar: um alto nível geral de alfabetização e aritmética, fortes habilidades interpessoais e de comunicação, vontade de aprender e motivação para ensinar. O processo de seleção, então, é projetado para testar essas habilidades e atributos e selecionar os participantes que os possuem.   Dois exemplos entre os processos de seleção mais efetivos são os de Singapura e da Finlândia. Ambos colocam grande ênfase nas conquistas acadêmicas dos candidatos, suas habilidades de comunicação e sua motivação para ensinar. Singapura implementou um único processo, a nível nacional, gerenciado conjuntamente pelo Ministério da Educação e o Instituto Nacional para a Educação.   A Finlândia, por sua vez, realiza o processo em duas partes. Primeiramente, os candidatos fazem um teste de múltipla escolha desenvolvido para avaliar o nível de alfabetização, aritmética e solução de problemas. Os candidatos com nota mais alta, então, passam para a segunda fase do processo, realizado por universidades. Nela, são testadas as habilidades de comunicação, o desejo de aprender, a habilidade acadêmica e a motivação para ensinar. Após serem aprovados, os professores ainda devem passar por avaliações nas instituições nas quais eles se candidataram para lecionar.   Além de realizar um bom processo seletivo, é importante ter certeza de que ele está sendo feito no tempo certo. Os sistemas escolares têm duas opções: selecionar as pessoas antes que elas iniciem o treinamento docente e limitar as vagas do programa de treinamento para os selecionados; ou deixar a seleção para depois que os professores se formarem no treinamento docente e selecionar aqueles com melhores resultados. Enquanto quase todos os sistemas de ensino do mundo utilizam o segundo modelo, a maioria dos sistemas de alta performance utiliza variações do primeiro.   Falhas em controlar a entrada no treinamento docente quase sempre levam a um excesso de oferta de candidatos, o que, por sua vez, tem um efeito significativamente negativo na qualidade do ensino. Os programas sofrem ao ter estudantes demais. Se o curso selecionar apenas o número de pessoas necessárias para ocupar as vagas, é possível gastar quase três vezes mais tempo no treinamento de cada estudante. A segunda opção de processo seletivo acaba fazendo do treinamento docente um programa de baixo status, o que leva a docência a se tornar uma profissão de baixo status.   Em Singapura, os candidatos são testados e selecionados antes de entrarem no treinamento docente. Eles, então, são formalmente empregados pelo Ministério da Educação e recebem um salário durante o programa. Isso faz com que o treinamento docente não seja apenas uma opção para quem não tem outras alternativas, e torne-se atrativos para candidatos de alta performance. Isso também significa que Singapura gasta mais por estudante que outros sistemas educacionais porque há menos pessoas no treinamento. Tudo isso faz com que o treinamento docente tenha alto status e seja atrativo e, consequentemente, faz com que ser professor seja uma profissão de alto status.   Os sistemas de alta performance também reconhecem que nenhum processo de seleção é perfeito. Por isso, é necessário manter um sistema de avaliação dos profissionais após a seleção. Na Inglaterra e na Nova Zelândia, os professores não recebem sua licença para lecionar até terem completado um ou dois anos de trabalho e possuam avaliações satisfatórias por parte dos diretores.   Outro ingrediente essencial para conseguir que os melhores candidatos se tornem professores é proporcionar um bom salário inicial. Com apenas uma exceção, todos os sistemas estudados pela Mckinsey on Society pagam salários iniciais acima da média.   Embora um bom salário possa não ser necessariamente a maior motivação para entrar na profissão, pesquisas apontam que se os sistemas de ensino não pagam salários iniciais na mesma linha de outras profissões, muitos entrevistados que têm outras razões para seguir a área não entrariam na profissão.

A importância do status da profissão docente

A habilidade dos sistemas de ensino de atrair as pessoas certas para a docência está intrinsecamente ligada ao status da profissão. Pesquisas de opinião em Singapura e na Coréia do Sul apontam que o público geral acredita que os professores contribuem mais para a sociedade que qualquer outra profissão. Novos docentes dos sistemas estudados relataram consistentemente que o status da profissão foi um dos fatores mais importantes na decisão de se tornarem professores.   Quando a docência se torna uma profissão de alto status, mais pessoas talentosas se tornam professores, o que torna o status da atividade ainda mais alto. E o oposto também é verdadeiro: onde a profissão tem baixo status, atrai candidatos menos talentosos, baixando o status da profissão e, com isso, a qualificação dos próximos candidatos.   Existem duas abordagens dominantes quando se trata de mudar o status da profissão:   l  Criar marcas: Boston, Chicago, Teach First (“Ensine primeiro”) e Teach For America (“Ensine pela América”) todos criaram marcas distintas com status separados associados a elas. Por exemplo, Teach first e Teach For America se marcaram com sucesso como programas diferentes da docência convencional. Eles conseguiram fazer a profissão ser aceita em um grupo que considerava a atividade como sendo de baixo status. Isso foi feito  colocando os participantes na posição de um grupo de elite.   l  Sistema amplo de estratégias: Singapura e Inglaterra implementaram estratégias de marketing cuidadosamente construídas, ligadas a programas de recrutamento, buscando o aumento do status da profissão. Em ambos os casos, os sistemas alavancaram melhores práticas dos negócios. O marketing foi apoiado por melhorias tangíveis em condições iniciais, em especial o aumento de salários.   Além de mudar como a profissão docente é vista externamente, a maioria dos sistemas percebeu que a visão da profissão está ligada à percepção do nível de educação e treinamento que os profissionais necessitam para se tornarem professores. Assim, a ênfase no desenvolvimento também é uma abordagem que ajuda a melhorar o status da profissão.   Na Finlândia, por exemplo, o status da docência foi elevado requerendo que todos os professores tenham mestrado. Já em Singapura, um resultado similar foi conseguido assegurando-se o rigor acadêmico dos cursos para professores e dando a todos os docentes o direito a 100 aulas de desenvolvimento profissional todos os anos.

Para melhorar os resultados, é preciso melhorar o ensino

Todos os sistemas escolares que estão no topo concordam com uma coisa: o único jeito que melhorar o desempenho dos alunos é melhorando o ensino. E o ensino ocorre quando estudantes e professores interagem. Assim, melhorar o processo de aprendizado significa melhorar essa interação.   Os sistemas de alta performance entenderam quais intervenções são efetivas para conseguir isso — treinar práticas em classe, mover o treinamento docente para a sala de aula, desenvolver líderes escolares fortes, proporcionar aos professores a oportunidade de aprender uns com os outros — e encontraram formas de transmitir essas intervenções por meio do sistema escolar.   A qualidade dos resultados de qualquer sistema escolar é essencialmente a soma da qualidade do ensino entregue pelos professores. Para proporcionar um ensino excelente, os professores precisam atingir habilidades sofisticadas e serem capazes de avaliar precisamente os pontos fortes e fracos de cada estudante, selecionando apropriadamente métodos que os ajudem a aprender e fornecendo educação de forma efetiva e eficiente.   A primeira parte do desafio é definir o que é um bom ensino. Majoritariamente, a dificuldade é encontrar os melhores educadores e dar a eles espaço para debater e criar um currículo melhor e boas práticas pedagógicas. A segunda, e mais complexa, parte é dar a milhares de professores a capacidade e o conhecimento para fornecer ensino ótimo e confiável todos os dias, em milhares de escolas, em circunstâncias que variam enormemente de uma classe para outra — e tudo isso com pouquíssima supervisão.   De acordo com o estudo da McKinsey on Society, os sistemas de maior performance são implacáveis em seu foco de melhorar a qualidade do ensino nas salas de aula. No entanto, esse foco no ensino é insuficiente. Para melhorar o ensino, as escolas precisam encontrar maneiras de mudar fundamentalmente o que acontece nas salas de aula. No nível dos professores, isso significa fazer com que três coisas aconteçam: professores precisam estar conscientes sobre as fraquezas em suas próprias práticas, terem entendimento sobre as melhores práticas específicas e serem motivados a fazer as melhorias necessárias.   Há, de maneira geral, quatro formas que os sistemas utilizam para que esses objetivos sejam alcançados:

  1. Construir habilidades práticas durante o treinamento inicial: diversos sistemas moveram seu período inicial de treinamento de auditórios para a sala de aula. Isso permite que os professores construam habilidades de ensino mais efetivamente.
  2. Colocar treinadores nas escolas para dar apoio aos professores: todos os sistemas superiores reconhecem que, se você quer bons professores, precisa de outros bons professores para treiná-los, o que requer um treinador para cada professor na sala de aula. Professores especialistas são colocados nas classes para fornecer feedback, modelar um ensino melhor e ajudar os docentes a refletir sobre suas próprias práticas.
  3. Selecionar e desenvolver líderes educacionais eficazes: treinamento é eficaz como uma intervenção, mas pode se tornar ainda mais uma vez que as escolas têm desenvolvido a cultura de treinamento e desenvolvimento que irá sustentá-lo. Para alcançar esse objetivo, certos sistemas escolares asseguram que seus líderes escolares sejam também líderes instrucionais. Eles colocam em prática mecanismos para selecionar os melhores professores para se tornarem diretores e treiná-los para se tornarem líderes instrucionais que, em seguida, passam boa parte do seu tempo treinando e monitorando seus professores.
  4. Possibilitar que os professores aprendam uns com os outros: alguns dos melhores sistemas encontraram maneiras de capacitar os professores a aprender uns com os outros. Os professores na maioria das escolas trabalham sozinhos. Em alguns dos principais sistemas do topo, no entanto, os professores trabalham juntos, planejam suas lições em conjunto, observam as lições dos outros e se ajudam mutuamente. Estes sistemas criam uma cultura em suas escolas em que o planejamento colaborativo, a reflexão sobre o ensino e o treinamento de pares são a norma da vida escolar. Isso permite que os professores se desenvolvam continuamente.

A maioria dos sistemas de alta performance combina duas ou três dessas abordagens. Enquanto as duas primeiras são intervenções que melhoram o ensino, mas que não tentam incorporar uma cultura de melhoria contínua, as outras duas complementam-nas, centrando-se na criação de uma cultura que pode ajudar a garantir uma melhoria com sustentação.

A melhor educação para cada (e toda) criança

  Obter as pessoas certas para se tornarem professores e desenvolvê-los em instrutores eficazes dão aos sistemas escolares a capacidade de que precisam para oferecer o ensino que leva a melhores resultados. Sistemas escolares de alto desempenho vão além disso e implementam processos que são projetados para garantir que cada criança seja capaz de se beneficiar deste aumento da capacidade.   Estes sistemas estabelecem expectativas elevadas para o que cada aluno deve alcançar e, em seguida, monitoram o desempenho deles, intervindo sempre que não são atendidas as expectativas. Os sistemas escolares de alto desempenho constroem intervenções efetivas no nível da escola, identificando instituições que não estão funcionando satisfatoriamente e intervindo para elevar os padrões de desempenho. Os melhores sistemas intervêm ao nível individual do aluno, desenvolvendo processos e estruturas dentro das escolas que são capazes de identificar sempre que um estudante está começando a ficar para trás e, em seguida, intervindo para melhorar o desempenho da criança.   É preciso garantir que todas as crianças, não só algumas, tenham acesso ao ensino de excelência. Assegurar que todas se beneficiem de instrução de alta qualidade não é apenas uma finalidade importante, mas as evidências das avaliações internacionais sugerem que um forte desempenho para o sistema como um todo depende disso. Por exemplo, as notas do Programme for International Student Assessment – PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) dos sistemas de alto desempenho mostram uma baixa correlação entre os resultados e o histórico de cada estudante. Os melhores sistemas têm produzido abordagens para garantir que a escola possa compensar as desvantagens resultantes do ambiente doméstico do aluno.   Os sistemas de alto desempenho são melhores para garantir que cada aluno receba a instrução que eles precisam para compensar suas experiências anteriores. Eles começam estabelecendo expectativas claras e altas para o que cada estudante deve conhecer, entender e ser capaz de fazer. Eles asseguram que os recursos e financiamentos sejam direcionados para os alunos que mais precisam deles. Os sistemas, então, monitoram de perto o desempenho das escolas em relação às expectativas e desenvolvem mecanismos eficazes para intervir quando elas não são atendidas.   Uma combinação de monitoramento e intervenção eficaz é essencial para assegurar que um bom ensino seja fornecido de forma consistente para todos os alunos. Os sistemas escolares de alto desempenho monitoram seu desempenho por meio de exames e inspeções, principalmente em escolas que têm pouca capacidade de melhorarem por si mesmas.   Os sistemas de ensino usam os resultados do monitoramento para intervir de forma eficaz, elevar os padrões e alcançar um desempenho uniformemente alto. Os melhores sistemas fazem um exame deste processo dentro das escolas, avaliando constantemente o desempenho dos estudantes e construindo as intervenções para ajudar cada aluno e impedir que alguns deles fiquem para trás.

Um longo caminho

Colocar em prática as três questões que mais importam para desenvolver um sistema de alto desempenho — conseguir as pessoas certas para serem seus professores; ajudá-los a se tornarem instrutores efetivos; e assegurar que o sistema esteja apto a proporcionar a melhor educação possível para cada criança — exige uma reforma geral do sistema escolar.   As reformas escolares raramente são bem-sucedidas sem uma liderança efetiva, tanto no nível do sistema quanto no nível de cada escola. Alterar a governança ou o gerenciamento de um sistema pode, portanto, ser um pré-requisito necessário para a melhoria, mesmo que tais mudanças não conduzam necessariamente à melhoria em si mesmas.   De maneira parecida, os sistemas que não financiam de forma equitativa as escolas mais pobres têm poucas possibilidades de se apresentarem bem, embora a simples alteração da estrutura de financiamento não leve necessariamente à melhora. A natureza do currículo também é crítica. Sem um sistema eficaz para pôr em prática o currículo, qualquer mudança no conteúdo do curso ou nos objetivos de aprendizagem terá pouco impacto nos resultados.   O caminho é desafiador, mas é possível alcançar o topo. Em muitos casos, fatores externos impedem a mudança e esses problemas precisam ser resolvidos primeiro para permitir que o sistema escolar implemente políticas e processos que melhorem o desempenho dos alunos.   Em última análise, para alcançar uma real melhora nos resultados, os sistemas de ensino e seus líderes devem se guiar pelos três princípios: a qualidade de um sistema educativo não pode exceder a qualidade dos seus professores; a única maneira de melhorar os resultados é melhorar o ensino; e alcançar resultados universalmente elevados só é possível por meio da criação de mecanismos que garantam que as escolas proporcionem educação de alta qualidade a todas as crianças.