Formação docente: como desenvolver profissionais para cenários diversos

10 de setembro de 2020

Novo cenário da educação destaca ainda mais a necessidade de investir em uma melhor formação de professores no Brasil.

A formação docente é um assunto que nem sempre recebe tanto destaque quanto deveria. Será que realmente paramos para pensar na forma que os futuros professores, responsáveis por ensinar crianças e jovens que serão o futuro do país, estão sendo ensinados?

Essa é uma questão super interessante e que deve abrir nossos olhos para uma necessidade de atualização cada vez mais latente na formação de docentes, algo que só tem a beneficiar todas as partes envolvidas.

Professores que aprendem melhor podem ensinar melhor seus alunos, estes partes integrantes da evolução do nosso país. Com isso, a sociedade será beneficiada, entre ela uma parcela de pessoas que também entrarão na carreira do ensino e, por ter bases mais sólidas e atuais, terão um desempenho ainda melhor.

Este aprendizado deve ser voltado à preparação dos docentes para diferentes cenários. Há alguns anos, bastava prepará-los para enfrentar uma sala de aula e saber como lidar com ela, mas em tempos de ensino híbrido e de uma verdadeira revolução no ensino, isso já não é mais suficiente.

Em um mundo VUCA (Volatile, Uncertain, Complex and Ambiguous; ou volátil, incerto, complexo e ambíguo), os professores precisam estar preparados para os  mais variados cenários, como o ensino híbrido e o ensino online, cuja força só tem a crescer com o passar do tempo.

Continue conosco para entender como a formação de docentes deve ser feita a partir de então, de modo que tais profissionais estejam preparados para encarar novos desafios e, assim, consigam contribuir intensamente como verdadeiros transformadores da sociedade.

Como deve ser feita a formação docente para preparar os profissionais aos novos cenários da educação?

Essa é uma questão bem ampla, que pode iniciar um debate longo e intenso, permeado por uma série de questões, necessidades e gaps em relação ao que já acontece, mas separamos algumas das principais.

É interessante notar que a maioria delas não trata especificamente de hard skills (competências técnicas), mas sim de soft skills (competências comportamentais), o que já descortina uma grande mudança na qual se olha para a formação docente – e de vários outros profissionais, na verdade.

Os pontos que separamos para comentar sobre essa questão são os seguintes:

Preparo para lidar confortavelmente com a tecnologia

Não é de hoje que a tecnologia ajuda na educação. De acordo com a aprenda.online, plataforma criada pela Fundação Lemann, mais de 12 milhões de brasileiros acessam ferramentas de educação pela internet, como videoaulas, jogos e dicas.

Os dados são referentes a 2016, o que comprova que o uso da tecnologia já ocorre há um bom tempo, e a migração digital na educação potencializada pela pandemia só mostra qual é o destino da área: uma presença cada vez mais forte do digital.

Porém, ao mesmo tempo em que a tecnologia é tão necessária, nota-se que a formação docente não foca tanto nisso quanto deveria. De acordo com uma pesquisa do Instituto Península, 83% dos professores ainda se sentem despreparados para o ensino virtual.

Se essa já era uma demanda importante, hoje isso é ainda mais significativo. O ensino híbrido (blended learning), que combina o ensino dentro e fora da sala de aula e desponta como a solução para o retorno às aulas presenciais, tende a ter uma participação cada vez maior na educação.

Como este é um caminho sem volta, o que é ótimo, diga-se de passagem, a formação de professores no Brasil deve contemplar matérias, conteúdos, técnicas e práticas que familiarizem os docentes com as ferramentas digitais e, assim, permitam que eles se sintam bem ao utilizá-las.

Leia também: Ensino online x ensino remoto: estamos prontos?

Equipagem socioemocional

O socioemocional sempre foi importante na educação, começando pelo próprio professor. Já comentamos por aqui, em nosso artigo sobre Síndrome de Burnout, que aproximadamente 15% dos docentes sofrem com este distúrbio psíquico de completo esgotamento emocional, físico e psicológico.

Além disso, há que se ponderar também a importância do socioemocional no trato com os alunos, algo que se aplica durante todo o processo educacional, mas é reforçado agora, no pós-pandemia, em que o “novo normal” ainda está bem longe de ser normal.

Muitos alunos não conseguiram estudar bem enquanto as aulas presenciais foram paralisadas, como por conta da falta de acesso a smartphones, tablets, computadores, notebooks ou mesmo a uma conexão de internet estável e rápida, o que prejudicou bastante sua aprendizagem.

Esta é uma situação bastante significativa, e soma-se a ela o fato de que muitos estudantes passaram por situações familiares complicadas, como a perda de trabalho de seus pais e responsáveis e até mesmo a perda de pessoas queridas por consequência da COVID-19 e todos os seus desdobramentos.

O socioemocional na formação de docente não se aplica apenas ao cenário da pandemia, mas sim em um mundo de rápida transformação, como o conceito de VUCA que comentamos anteriormente. Tanta volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade também influencia na vida dos alunos.

Logo, se lidar com o socioemocional já era importante, quanto mais agora, e é fato que a formação docente deve levar isso em consideração para que os profissionais estejam preparados para lidar com questões desse espectro.

Incentivo à residência pedagógica

Já estamos acostumados com a residência médica, em que médicos recém-formados atuam na prática em ambiente hospitalar, onde colocam seus conhecimentos à prova e aprendem como a teoria dos livros se aplica ao dia a dia.

A mesma familiaridade deveria existir com a residência pedagógica, que embora aplicada em um cenário diferente, tem o mesmo objetivo: preparar os docentes para o que os espera em suas carreiras profissionais.

Ao incentivar a residência pedagógica na formação docente, tais profissionais poderão participar ativamente da vida da escola e entender como elas operam, o que é bem diferente de estudar dentro da sala de aula da faculdade de pedagogia.

Quem sabe o que é formação docente entende que o processo deve contemplar o máximo de situações possíveis pelas quais os profissionais podem passar em suas trajetórias, e submetê-los à prática enquanto são auxiliados pelos médicos especialistas – ou melhor, por professores experientes – é altamente proveitoso.

Olhar orientado para dados

Assim como acontece com profissionais de praticamente todas as áreas, é cada vez mais demandado o conhecimento de dados para guiar o aprendizado, o que pode trazer um ponto de vista totalmente diferente para o professor.

Nem sempre se pensa nisso, mas o volume de dados gerados diariamente por uma escola é enorme. Notas, frequências, documentos, matrículas e grades curriculares estão entre as fontes, além de informações sobre os professores, funcionários, ex-alunos e os próprios conteúdos abordados.

Tais dados, que representam um grande volume, devem ser analisados minuciosamente em busca de informações relevantes para a tomada de decisões nos processos de ensino-aprendizagem, o que coloca o professor em uma posição ainda mais privilegiada neste sentido.

No que tange às avaliações, podemos citar o trabalho feito pelo Prova Fácil Avaliações Regulares, que gera informações pelo cruzamento dos resultados das provas aplicadas, de modo que o professor tenha relatórios de desempenho dos alunos e, assim, uma visão macro sobre os resultados obtidos.

Na prática, ele pode, por exemplo, analisar quais questões tiveram um maior índice de erros e, assim, pensar em um reforço para ajudar a esclarecer as dúvidas que os alunos possam ter tido no momento da realização das atividades.

Há que se ressaltar que a inserção dos dados e sua posterior análise são feitas de maneira simples e intuitiva, o que ajuda bastante na adaptação e usabilidade por parte dos professores e demais docentes que o utilizarem.

Leia também: Dados na educação: como eles te auxiliam a conhecer melhor seus alunos

Reforço dos conteúdos que serão ensinados em sala de aula

De acordo com um levantamento feito pelo Inep, 19,1% dos candidatos do Enem 2014 que ingressaram em uma graduação de pedagogia no ano seguinte não conseguiriam obter um certificado de ensino médio com a nota do exame, como mostra este artigo da Folha de S.Paulo.

Isso nos mostra que, por vezes, a dificuldade que alguns professores apresentam em sala de aula não é a falta de didática, mas sim o próprio domínio dos conteúdos que deve ensinar, o que pode ser o resultado de lacunas em sua formação prévia quando ainda era um estudante.

Por isso, é interessante que a formação de professores no Brasil leve em consideração essas lacunas e, portanto, reforce alguns dos principais conteúdos a serem ensinados em sala de aula, além de orientar os futuros docentes em relação às melhores maneiras de assimilar esses e outros conteúdos.

Com um pleno domínio do que se deseja ensinar, as chances de otimizar o processo de ensino-aprendizagem tornam-se muito maiores.

Veja também: Como valorizar o papel do professor no Brasil?

Esforços das instituições de ensino para a atualização dos formadores

Por último, mas de maneira alguma menos importante, é necessário investir na atualização dos formadores, ou seja, professores que ensinam os futuros docentes, com todos os conceitos que abordamos neste conteúdo e com vários outros assuntos que remetem ao novo cenário da educação.

É preciso preparar os docentes para lidar com desafios que enfrentarão na atualidade, mas se os professores que os ensinam ainda estiverem arraigados a técnicas e práticas muito antigas e que já não se aplicam, essa renovação fica bem mais complicada.

Logo, ao invés de olhar apenas para a figura do professor recém-formado que pode ter alguns gaps em relação aos processos de aprendizagem, é importante ampliar o campo de visão para enxergar também quem foram os profissionais que estiveram por trás de seu ensino e qual foi a metodologia aplicada no ensino.

Essa é uma questão que não se concentra na idade dos professores, mas sim em seu modus operandi em relação ao ensino. Afinal de contas, eles devem estar preparados para orientar os futuros professores em relação ao que encontrarão de fato nas salas de aula presenciais e digitais.

Porém, devemos ressaltar que essa é uma atribuição para os gestores da educação e para o orçamento das instituições de ensino, que devem investir no treinamento e desenvolvimento de professores para, assim, permitir uma evolução contínua e tão importante no mundo VUCA que comentamos e em que vivemos.

É importante atualizar a formação de professores no Brasil para preparar docentes cada vez melhores

Quem entende o que é formação docente sabe que o processo é basilar para toda a sociedade, já que está relacionado ao aprendizado recebido pelos profissionais que orientarão as crianças e jovens, que são o futuro do nosso país e, por extensão, de todo o mundo.

Em um mundo em que as atualizações se dão de maneira tão acelerada, não podemos deixar de olhar para os processos formadores dos professores e docentes. Otimizá-los é imprescindível para que o cenário da educação seja cada vez melhor.

A formação docente é um processo absolutamente louvável, e atualizá-lo de acordo com a realidade de agora na educação é necessário, o que só tem a beneficiar todos os envolvidos.